Investigação testa novas variedades e práticas no campo

No início de setembro, o tradicional Dia Aberto dos Cereais do Baixo Mondego deu a conhecer o trabalho desenvolvido no Campo do Bico da Barca, do Polo de Inovação de Coimbra da CCDR Centro, com destaque para o estudo de novas variedades e soluções para uma produção mais eficiente e sustentável.

Dia aberto dos cereais do Baixo Mondego

Na Unidade Experimental do Bico da Barca, produtores e técnicos acompanharam os ensaios em curso nas culturas do arroz e do milho.

A visita foi comentada por António Jordão, técnico superior e coordenador dos ensaios da CCDR Centro, que destacou as principais áreas de investigação, entre as quais o melhoramento genético do arroz, o estudo de novas variedades, o biocontrolo e o desenvolvimento de soluções que permitam aumentar a eficiência dos recursos. Segundo o técnico superior da CCDR

Centro, “esta iniciativa já decorre há mais de 25 anos”, sendo os ensaios ajustados de ano para ano em função das necessidades e dos novos desafios que se colocam às culturas.

António Jordão, técnico superior e coordenador dos ensaios da CCDR Centro no uso da palavra

António Jordão, técnico superior e coordenador dos ensaios da CCDR Centro no uso da palavra

Programa de Melhoramento Genético do Arroz

Programa de Melhoramento Genético do Arroz

Na cultura do arroz, por exemplo, uma das principais linhas de trabalho é o Programa de Melhoramento Genético, desenvolvido em parceria com o INIAV e o COTARROZ.

O objetivo é testar novos genótipos que possam vir a dar origem a variedades nacionais e chegar aos agricultores. Paralelamente, os ensaios de variedades procuram avaliar a adaptação ao Baixo Mondego, o comportamento agronómico, a produção e o rendimento industrial.

A Lusosem, parceira da CCDR Centro neste trabalho, acompanha há vários anos o desenvolvimento e a avaliação de variedades de arroz.

Filipa Setas da LUSOSEM

Filipa Setas, da LUSOSEM

Filipa Setas, da LUSOSEM, sublinha que a colaboração abrange não só o melhoramento genético e as novas variedades, mas também “a sua nutrição, proteção e desenvolvimento de práticas culturais”.

Os resultados dos ensaios são posteriormente avaliados e divulgados junto dos produtores, através deste Dia Aberto e de outras iniciativas dirigidas ao setor. Para Filipa Setas, o objetivo é que a experimentação desenvolvida tenha aplicação prática:

A LUSOSEM muitas vezes apoia propostas que a própria CCDR faz, ou propõe desenvolvimento de novas variedades, novos produtos e ensaios de nutrição ou proteção e procura, com esse trabalho, contribuir para uma valorização do trabalho depois no terreno.

campo de arroz

Entre as variedades nacionais, o Caravela assume particular destaque

“O Programa de Melhoramento Genético Nacional já começou a originar variedades”, refere Filipa Setas, lembrando que a LUSOSEM adquiriu os direitos de uma das primeiras variedades a chegar ao mercado. “É o Caravela, um arroz carolino 100% nacional”, afirma, explicando que a variedade integra um consórcio de investigação, empresa de sementes, indústria e grande distribuição.

O projeto pretende não só acrescentar valor à variedade, mas também afirmar o arroz carolino nacional junto do consumidor.

O Caravela é ainda, segundo a responsável da LUSOSEM, uma variedade produtiva e adaptada às três diferentes zonas de produção. “A variedade em si tem interesse, tem algumas fragilidades, como todas as variedades têm”, reconhece, destacando ainda as suas características enquanto carolino e a flexibilidade em termos gastronómicos.

Nesse sentido, considera importante promover também maior conhecimento junto dos consumidores, sobretudo das gerações mais jovens, sobre o arroz carolino.

Além do Caravela, a LUSOSEM trabalha com outras variedades, como o Ariete e o Teti, já implementadas nas três zonas produtoras

“Já temos estas três variedades com algum orgulho nos supermercados com a menção à variedade na embalagem. Isto é um orgulho, é um trabalho que levou muito tempo, é um trabalho de fileira e que pode promover à tal valorização do nosso arroz carolino”, sublinha.

A empresa está também a trabalhar com variedades mais recentes e destinadas a outros segmentos. “Temos um Sibilla, que é uma variedade mais de nicho, e temos um Chirone, que é um arroz tipo redondo”, explica.

O trabalho de melhoramento prossegue, com a empresa a acompanhar o Programa “à espera de novas variedades que surjam do COTARROZ”.

PROTEÇÃO E NUTRIÇÃO ACOMPANHAM AS SEMENTES

Proteção e nutrição acompanham as sementes

A intervenção da LUSOSEM não se limita às variedades. A empresa trabalha também na proteção e nutrição das culturas, procurando acompanhar a evolução das necessidades da produção de arroz. “A LUSOSEM, de base é uma empresa de sementes.

No entanto, tem uma multiatividade e olha para a cultura como um todo”, adianta Filipa Setas.

Na proteção, o trabalho passa não só pelos herbicidas convencionais, mas também pelo biocontrolo, com soluções dirigidas, entre outros problemas, à piriculariose.

Na área da nutrição, estão a ser desenvolvidos trabalhos com bioestimulantes, produtos de solo e biofertilizantes.

“Portanto, é uma panóplia grande que vamos também inserindo à medida que o próprio mercado evolui para isso”, afirma.

“A variedade é apenas uma parte da equação”

A empresa propõe igualmente novos ensaios para avaliar o potencial de diferentes soluções e perceber se podem chegar ao mercado e acrescentar valor à cultura.

A estratégia passa por uma abordagem integrada, em que a variedade é apenas uma parte da equação.

“Uma variedade pode ser produtiva, mas consoante o maneio da sua cultura e o tipo de soluções que se usam na proteção e na nutrição, essa produção pode ser menor ou pode ser alavancada”, defende Filipa Setas.

Comercialização e controlo das infestantes são desafio

Manuel Laureano, da LUSOSEM

Manuel Laureano, da LUSOSEM

Para Manuel Laureano, da LUSOSEM, um dos principais desafios do setor está na comercialização e na capacidade de valorizar a produção, já que “hoje em dia, a comercialização e o perfil do arroz que estamos a produzir é um fator crítico à valorização”.

Na sua perspetiva, esta questão deve começar a ser equacionada pelo próprio agricultor no momento da escolha da variedade, uma vez que “não basta escolher uma variedade porque ela é muito boa no campo, tem que escolher uma variedade que a seguir tenha escoamento e maior ou menor valorização”.

A decisão deve, por isso, ter em conta os mercados disponíveis, o tipo de arroz procurado e o seu potencial, num desafio que pode também representar uma oportunidade: “Quando acertarmos nas variedades e nos circuitos comerciais, temos oportunidades”, afirma, lembrando que “quase 50% da produção de arroz é para exportação”.

Adoção de novas práticas agrícolas

A par da comercialização, existem desafios de natureza técnica, nomeadamente no controlo das infestantes e do arroz bravo, para os quais, segundo Manuel Laureano, existem “cada vez menos soluções” ao nível dos herbicidas.

E, apesar da LUSOSEM ser também uma empresa de herbicidas, reconhece que “isto não vai lá só com herbicidas”. A resposta passa, assim, pela adoção de novas práticas agrícolas, entre elas a recuperação do potencial produtivo das parcelas, a falsa sementeira e a sementeira enterrada

“Um dos grandes desafios é conseguir convencer o setor e alertar que há novas práticas”, defende, considerando que “a adoção dessas práticas e a melhoria das práticas que os agricultores fazem todos os dias” serão essenciais para enfrentar o problema das infestantes.

Equipa LUSOSEM no Dia Aberto dos Cereais do Baixo Mondego

Equipa LUSOSEM no Dia Aberto dos Cereais do Baixo Mondego

A orizicultura entre a evolução e a pressão dos mercados

Carlos Parreira do Amaral, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal

Carlos Parreira do Amaral, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal

A orizicultura portuguesa vive atualmente uma realidade marcada por fortes contrastes.

No campo, a evolução tecnológica, o conhecimento e a capacidade dos produtores permitem atravessar, segundo Carlos Parreira do Amaral, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP) e produtor no concelho de Santiago do Cacém, “um momento fantástico”.

A maior preocupação está, porém, nos mercados e na entrada de grandes volumes de arroz provenientes de países onde as regras de produção são diferentes das impostas aos agricultores europeus.
 

“O problema do arroz é político”

“Nós não temos aqui uma concorrência leal”, afirma, alertando que a pressão sobre os preços coloca em causa a sustentabilidade financeira da cultura e, consequentemente, a renovação geracional.

“O problema do arroz não tem a ver com a capacidade técnica, nem com a tecnologia. É um problema político”, defende. A AOP tem procurado, juntamente com o Governo e o GPP, encontrar instrumentos que permitam garantir a continuidade da produção nacional, numa fase em que decorrem também negociações para a nova PAC.

Apesar das dificuldades, Carlos Amaral deixa uma mensagem de esperança aos agricultores:

Vamos tentar arranjar um pacote que sobreviva, ou que dê para sobreviver agora ou no futuro.