Pastagens para o futuro
15 jul 2026

Uma visita técnica da Lusosem à Barenbrug mostrou como a combinação entre melhoramento genético, misturas multiespécies e gestão das pastagens poderá ajudar os produtores a enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.

A Barenbrug e a Lusosem partilham uma parceria estratégica alicerçada numa visão comum de crescimento sustentável e colaboração a longo prazo.

Unindo conhecimento, experiência e pontos fortes regionais, as duas empresas trabalham em conjunto para enriquecer os seus portefólios de produtos, otimizar a presença nos mercados europeus e gerar valor acrescentado para os clientes.

No centro desta aliança está um compromisso firme com a sustentabilidade: desenvolver soluções que promovam uma agricultura resiliente, um uso eficiente da terra e práticas ambientalmente responsáveis.

A produção de forragens atravessa um período de profunda transformação.

As alterações climáticas, a necessidade de produzir mais alimento com menos recursos e a crescente pressão para melhorar o desempenho ambiental das explorações estão a mudar a forma como produtores, empresas de sementes e investigadores encaram o futuro do setor.

Foi neste contexto que a Lusosem, foi em conjunto com a Cooperativa União Agrícola de São Miguel — CUA —, dos Açores, para uma visita técnica à Holanda, com o objetivo de conhecer de perto o trabalho desenvolvido pela empresa holandesa no melhoramento de espécies forrageiras e na criação de sistemas de produção mais resilientes.

A cooperativa açoriana está ligada ao programa LIFE, o principal instrumento de financiamento europeu para o ambiente e a ação climática, o que reforça o alinhamento entre os objetivos da visita e o compromisso da cooperativa com práticas agrícolas mais sustentáveis.

A viagem incluiu uma visita ao campo de demonstração da Barenbrug, em Homoet, e o contacto direto com produtores de referência que utilizam estas soluções nas suas explorações.

seed quality

seed quality

O laboratório das forragens do futuro

O laboratório das forragens do futuro

No campo experimental de Homoet, os participantes puderam observar dezenas de variedades e misturas forrageiras desenvolvidas pela Barenbrug.

Tom Niehof, diretor internacional de produto forrageiro da Barenbrug, guiou o grupo pelo campo e explicou a filosofia da empresa: “Durante décadas avaliámos as variedades sobretudo pelo rendimento. Hoje, os desafios são muito mais complexos — produzir com menos recursos, reduzir o impacto ambiental e adaptar-se a condições cada vez mais imprevisíveis.”

A aposta passa por sistemas forrageiros que conjuguem produtividade, qualidade nutricional e tolerância a condições adversas.

Mais do que demonstrar o desempenho de variedades individuais, o objetivo principal é evidenciar o potencial das misturas de espécies e variedades, consideradas cada vez mais importantes para aumentar a persistência das pastagens, reduzir riscos e melhorar a estabilidade produtiva ao longo dos anos.

Os ensaios permitem avaliar o comportamento das diferentes espécies em condições reais de produção. Entre os temas abordados destacou-se a importância da gestão das gramíneas através do chamado princípio da terceira folha: quando surge a quarta folha, a primeira começa a morrer, reduzindo a qualidade nutritiva da planta.

O momento do corte ou do pastoreio continua, por isso, a ser determinante para maximizar o valor alimentar da forragem.

A diversidade genética presente nos ensaios evidencia também a aposta crescente da empresa em leguminosas, misturas multiespécies e soluções orientadas para uma utilização mais eficiente do azoto e da água.

Produtores que fazem da forragem um fator de competitividade

A visita permitiu ainda conhecer duas explorações leiteiras onde a produção de erva assume um papel central na estratégia alimentar.

Em Groesbeek, William Nillesen gere uma exploração com 170 vacas leiteiras e 75 animais jovens. Com uma produção média próxima dos 40 litros por vaca, combina o pastoreio com um sistema “zerograzer”, que corta diariamente erva fresca para incorporação na dieta unifeed.

A exploração trabalha cerca de 120 hectares de milho e pastagem e procura maximizar a eficiência através da redução de custos e da valorização da proteína produzida na própria exploração.

O modelo de produção está alinhado com as exigências do mercado holandês, onde algumas indústrias e cadeias de distribuição remuneram adicionalmente práticas relacionadas com a sustentabilidade, a biodiversidade e o bem-estar animal.

Já em Arkel, Job van de Water explora 37 hectares de pastagem para alimentar 80 vacas leiteiras. Cerca de 85% da forragem consumida pelos animais provém da erva, complementada por pequenas quantidades de milho.

Uma das particularidades da exploração é a prática regular de ressementeira, realizada várias vezes por ano, que permite manter a qualidade das pastagens sem necessidade de renovação completa.

Alguns dos seus prados têm mais de duas décadas e continuam a apresentar elevados níveis de produtividade e qualidade.

Este produtor foi finalista do concurso holandês de melhor produtor de pastagens de 2026, um reconhecimento que reflete a importância crescente atribuída ao conhecimento técnico e ao maneio das pastagens.

Produzir mais com menos recursos

Para Manuel Laureano, da Lusosem, a produção forrageira encontra-se num ponto de viragem. Se durante décadas o principal objetivo foi maximizar a produção, hoje a prioridade passa também por garantir sistemas capazes de manter níveis elevados de desempenho perante condições cada vez mais imprevisíveis.

A produção de forragens já não pode ser avaliada apenas pelo rendimento. O desafio consiste em produzir mais alimento com menos recursos, reduzir o impacto ambiental e adaptar-se a condições climáticas cada vez mais variáveis.
Afirma.

Segundo ele, a procura tenderá a concentrar-se em misturas capazes de combinar produtividade, qualidade nutricional, eficiência no uso dos nutrientes e maior tolerância à seca. Produzir mais proteína dentro da própria exploração será igualmente uma prioridade, reduzindo a dependência de matérias-primas importadas.

A genética já está a trabalhar para 2045

De acordo com Tom Niehof, International Product Manager Forage da Barenbrug,, os ciclos de melhoramento genético são longos e as variedades que chegarão ao mercado nos próximos anos estão já a ser selecionadas para responder aos desafios das próximas décadas.

menos recursos
in the field
seeds
hand and grass

A empresa identifica como prioridades a digestibilidade, a sanidade das culturas, a eficiência mineral e a capacidade de adaptação aos extremos climáticos. As misturas forrageiras assumem aqui um papel central, uma vez que oferecem maior estabilidade perante condições adversas do que variedades únicas.

A integração de leguminosas nas pastagens é igualmente vista como uma tendência estrutural, não apenas pelo contributo para a fixação biológica de azoto, mas também pelos benefícios ao nível da biodiversidade, fertilidade do solo e sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Os agricultores estão mais informados e exigem soluções que funcionem a longo prazo, não apenas numa boa primavera.

Na margem desta visita, a Ruminantes conversou com Manuel Laureano, da Lusosem, sobre a inovação no setor forrageiro e o papel que a empresa portuguesa tem vindo a desempenhar nesta evolução.

O setor das forragens em Portugal está a mudar. Como vê essa evolução?

Durante décadas, a avaliação das variedades forrageiras assentou quase exclusivamente no rendimento de matéria seca. Hoje, os critérios são muito mais abrangentes: qualidade nutricional, resistência a condições adversas, contributo para a saúde do solo. Os agricultores estão mais informados e exigem soluções que funcionem a longo prazo, não apenas numa boa primavera.

Portugal tem características climáticas muito particulares. Que desafios coloca isso à seleção de variedades?

Portugal Continental ocupa uma posição mediterrânica com elevada irregularidade de precipitação e verões muito secos. Isso coloca exigências muito específicas: precisamos de variedades com elevada resistência à secura, boa persistência em solos muitas vezes ácidos e com capacidade de recuperar rapidamente após corte ou pastoreio.

A Barenbrug tem investido muito nesta área, e a nossa rede de ensaios em Portugal — que inclui zonas tão distintas como o Alentejo e o Entre Douro e Minho — permite-nos perceber muito rapidamente o que funciona e o que não funciona nas condições locais. Também nos Açores, com condições diferentes, esta rede de ensaios procura soluções adaptadas à região.

Que papel têm as leguminosas neste contexto?

As leguminosas são cada vez mais relevantes. Fixam azoto atmosférico, reduzem a dependência de fertilizantes minerais, melhoram a biodiversidade das pastagens e aumentam o valor nutritivo da forragem. Temos vindo a trabalhar em misturas multiespécies que combinam gramíneas e leguminosas de forma equilibrada e os resultados em Portugal têm sido muito promissores. No futuro, prevejo que estas misturas venham também a ter um papel importante no mercado nacional.

Como é que a Lusosem se está a adaptar a esta nova realidade?

A Lusosem continua a investir fortemente no acompanhamento técnico dos agricultores e no envolvimento com os nossos parceiros internacionais. A parceria com a Barenbrug é muito mais do que uma relação comercial — é uma colaboração de longa data, com partilha de saberes, ensaios conjuntos e uma visão comum sobre o que o setor precisa. Ambas as equipas técnicas multidisciplinares e dedicadas — veterinários, nutricionistas, engenheiros agrónomos — trabalham em conjunto, diretamente com os produtores. Acreditamos que o agricultor bem informado toma melhores decisões, e é aí que queremos estar."

Que mensagem deixa aos produtores nacionais?

Que não encarem as sementes como um custo, mas como um investimento. Uma boa pastagem, robusta e persistente, reduz os inputs, melhora a saúde animal e garante maior segurança económica a médio prazo. Se houver integração inteligente entre genética, maneio e nutrição, o agricultor português pode ser muito competitivo. E a Lusosem está aqui para ajudar nesse caminho

Por Redação Ruminantes | Fotos Cedidas pela Lusosem, CUA