O maior problema na Cultura do Arroz é o Controlo de Pragas, Doenças e Infestantes
5 set 2018

Joaquim Cabeça, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP), acredita que é viável aumentar a produção nacional de arroz em 20% até 2022 usando as novas variedades portuguesas, mas alerta que os orizicultores perdem muito dinheiro na fileira por falta de capacidade de organização.

Quem é a Associação de Orizicultores de Portugal (AOP) e qual é a sua missão?

A AOP foi criada em Novembro de 1981 com o objetivo de agregar os produtores de arroz numa associação que defende e representa o setor e os seus interesses junto das instâncias nacionais e internacionais. Agrega produtores de todas as bacias orizícolas, representando 65% (19.500 hectares) da área nacional de arroz.

Quais são hoje os principais desafios dos produtores de arroz do ponto de vista agronómico?

Temos como grande preocupação, relativamente à semente, desenvolver variedades em Portugal adaptadas às nossas condições edafoclimáticas, um trabalho iniciado há 14 anos, desenvolvido pelo INIAV e pelo COTARROZ, que permitiu, em 2017, registar duas novas variedades de arroz - Ceres (carolino) e Maçarico (agulha) – no Catálogo Nacional de Variedades. Mas, neste momento o maior problema agronómico na cultura do arroz é o controlo de pragas, infestantes e doenças (podendo este último ser minimizado por via da resistência genética das variedades nacionais).

A retirada de substâncias ativas e as restrições ao uso das que restam dificultam o controlo das pragas e doenças de forma eficaz. De cada vez que há necessidade de aplicar inseticidas ou fungicidas é necessário um pedido de autorização e, no caso dos fungicidas, não é permitida a aplicação por avião.

Imagine o que é controlar um ataque de piriculária num campo de arroz, quando a espiga já está desenvolvida, realizando a aplicação com um trator! Por outro lado, há cada vez menos herbicidas autorizados, quando na realidade o controlo das infestantes é o maior problema na cultura do arroz.

As resistências das plantas aos herbicidas são crescentes e notórias de ano para ano e não surgem no mercado novas soluções herbicidas, por falta de investimento da indústria de proteção das plantas neste segmento.

Melhoramento do arroz no Cotarroz permitiu colocar pela primeira vez no mercado nacional duas variedades portuguesas de arroz (Ceres e Maçarico). Sendo expectável que nos próximos anos outras variedades portuguesas sejam introduzidas no mercado

A falta de soluções para proteção da cultura do arroz afeta o rendimento dos orizicultores?

Nota-se um aumento dos custos de cultura do arroz. Se antes era suficiente uma aplicação de herbicida por campanha, agora são necessárias duas e três aplicações, devido à resistência das infestantes aos herbicidas autorizados. É um problema gravíssimo. Se não conseguirmos controlar as infestantes, a produtividade do arroz baixa e, por essa via, o produtor perde rendimento. Os fatores de produção aumentam todos os anos e o preço do arroz vendido mantém-se.

O projeto +ARROZ, liderado pela Lusosem, visa encontrar soluções sustentáveis para o problema do controlo de infestantes em arroz. Qual a sua expectativa sobre este projeto?

O projeto do Grupo Operacional +ARROZ é muitíssimo importante, pois agrega conhecimento de investigadores, empresas, centros de competências e organizações de produtores para encontrar soluções para o problema do controlo das infestantes e da sua resistência aos herbicidas na cultura do arroz

Cultura de Arroz | Orizicultura

O regadio é crucial para a orizicultura nacional. Quais as principais preocupações dos produtores nesta matéria?

Sem regadio a orizicultura não é possível. É preciso uma política agrícola interna que olhe para a questão da água e do regadio com mais importância. Quando chove muito, sem locais adequados para armazenar a água, muita dela é desperdiçada, e quando precisamos dela não a temos.

A AOP participou na definição da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais. Quais as medidas da Estratégia mais urgentes?

As 20 medidas da Estratégia são prioritárias e transversais a todos os setores de produção de cereais. É um documento muito importante para a orizicultura. Destaco, por exemplo, a majoração dos investimentos no redimensionamento dos canteiros dos arrozais e dos investimentos em obras para levar a água diretamente aos canteiros ou ainda a criação de uma medida agroambiental para os arrozais: conservação da biodiversidade em sistemas agrícolas inundáveis. Mas também há a questão do apoio às Organizações de Produtores, dando-lhes meios para uma maior capacitação técnica. Por outro lado, o Ministro da Agricultura falou em dar prioridade à questão da redução dos custos da energia, o que para nós também é muitíssimo importante.

É urgente que a agricultura se organize para não ser substituída pela indústria

Aumentar o autoaprovisionamento de arroz de 60% para 80% até 2022 é viável?

Sim é viável aumentar a produção nacional de arroz e o desenvolvimento de novas variedades mais adaptadas ao clima das regiões orizícolas de Portugal poderá contribuir de forma significativa para este aumento, com variedades mais produtivas e mais resistentes a doenças e à acama. O Ceres e o Maçarico, nos ensaios realizados no Tejo, Sado e Mondego, apresentaram produtividades muito interessantes, acima das 6 ton/ha que se obtêm com algumas das variedades importadas mais cultivadas em Portugal. Temos indicadores muito positivos quanto ao arroz carolino Ceres, tanto em produtividade como em qualidade e desempenho gastronómico.

O Ceres e o Maçarico chegam ao mercado quando? Quem vai comercializar a semente?

Estas duas variedades estão em fase de multiplicação e paralelamente em fase de testes em cenário real do agricultor. Neste ano agrícola foram semeadas por duas organizações de produtores com o objetivo de dar a conhecer aos orizicultores as variedades. Pensamos que em dois a três anos estarão à venda e terão obrigatoriamente para os agricultores custos menores do que as sementes importadas. O INIAV, os agrupamentos de produtores e as indústrias, que estão representados no COTARROZ, estão a definir o modelo de comercialização da semente. Está tudo em aberto.

E na relação com a cadeia de valor a jusante (indústria, comércio, consumidor), quais os principais desafios dos orizicultores portugueses?

Quanto maior for a distância entre quem produz e quem consome, menor é o valor criado. Uma das questões que temos de repensar é a organização da produção, porque a indústria e a distribuição estão organizadas, sabem o que querem e fazem o seu trabalho.

Neste momento temos indústrias a fazer unidades de secagem e armazenagem de arroz, um papel que devia caber à produção. Perdemos muito valor neste circuito, por falta de capacidade de cumprirmos integralmente o nosso papel. Só com organizações de produtores fortes teremos maior capacidade negocial, tanto com a indústria como com a grande distribuição.

Por outro lado, comunicar com o consumidor para valorizar o arroz português é outro dos grandes desafios e necessidades do setor. As palavras-chaves são: valorização e diferenciação. É preciso explicar que há diferenças entre um arroz Carolino e Agulha, e face a outros tipos de arroz importado, e realçar as vantagens de consumir arroz português.

Produzimos arroz com qualidade e segurança em Portugal, mas é preciso que o consumidor o saiba, e para isso é necessário comunicar. A AOP, em parceria com a Casa do Arroz, tem feito algumas ações de comunicação e divulgação do arroz Carolino com bons resultados, mas é preciso insistir e massificar a mensagem.