O maior problema na Cultura do Arroz é o Controlo de Pragas, Doenças e Infestantes

Joaquim Cabeça, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP), acredita que é viável aumentar a produção nacional de arroz em 20% até 2022 usando as novas variedades portuguesas, mas alerta que os orizicultores perdem muito dinheiro na fileira por falta de capacidade de organização.

 

 

Quem é a Associação de Orizicultores de Portugal (AOP) e qual é a sua missão?

 

A AOP foi criada em Novembro de 1981 com o objetivo de agregar os produtores de arroz numa associação que defende e representa o setor e os seus interesses junto das instâncias nacionais e internacionais. Agrega produtores de todas as bacias orizícolas, representando 65% (19.500 hectares) da área nacional de arroz.

 

 

Quais são hoje os principais desafios dos produtores de arroz do ponto de vista agronómico?

 

Temos como grande preocupação, relativamente à semente, desenvolver variedades em Portugal adaptadas às nossas condições edafoclimáticas, um trabalho iniciado há 14 anos, desenvolvido pelo INIAV e pelo COTARROZ, que permitiu, em 2017, registar duas novas variedades de arroz - Ceres (carolino) e Maçarico (agulha) – no Catálogo Nacional de Variedades. Mas, neste momento o maior problema agronómico na cultura do arroz é o controlo de pragas, infestantes e doenças (podendo este último ser minimizado por via da resistência genética das variedades nacionais). A retirada de substâncias ativas e as restrições ao uso das que restam dificultam o controlo das pragas e doenças de forma eficaz. De cada vez que há necessidade de aplicar inseticidas ou fungicidas é necessário um pedido de autorização e, no caso dos fungicidas, não é permitida a aplicação por avião. Imagine o que é controlar um ataque de piriculária num campo de arroz, quando a espiga já está desenvolvida, realizando a aplicação com um trator! Por outro lado, há cada vez menos herbicidas autorizados, quando na realidade o controlo das infestantes é o maior problema na cultura do arroz. As resistências das plantas aos herbicidas são crescentes e notórias de ano para ano e não surgem no mercado novas soluções herbicidas, por falta de investimento da indústria de proteção das plantas neste segmento.

 

 

Orizicultores de Portugal - Cultura do Arroz


«Melhoramento do arroz no Cotarroz permitiu colocar pela primeira vez no mercado nacional duas variedades portuguesas de arroz (Ceres e Maçarico). Sendo expectável que nos próximos anos outras variedades portuguesas sejam introduzidas no mercado»


 

A falta de soluções para proteção da cultura do arroz afeta o rendimento dos orizicultores?

 

Nota-se um aumento dos custos de cultura do arroz. Se antes era suficiente uma aplicação de herbicida por campanha, agora são necessárias duas e três aplicações, devido à resistência das infestantes aos herbicidas autorizados. É um problema gravíssimo. Se não conseguirmos controlar as infestantes, a produtividade do arroz baixa e, por essa via, o produtor perde rendimento. Os fatores de produção aumentam todos os anos e o preço do arroz vendido mantém-se.

 

 

O projeto +ARROZ, liderado pela Lusosem, visa encontrar soluções sustentáveis para o problema do controlo de infestantes em arroz. Qual a sua expectativa sobre este projeto?

 

O projeto do Grupo Operacional +ARROZ é muitíssimo importante, pois agrega conhecimento de investigadores, empresas, centros de competências e organizações de produtores para encontrar soluções para o problema do controlo das infestantes e da sua resistência aos herbicidas na cultura do arroz

 

 

O regadio é crucial para a orizicultura nacional. Quais as principais preocupações dos produtores nesta matéria?

 

Sem regadio a orizicultura não é possível. É preciso uma política agrícola interna que olhe para a questão da água e do regadio com mais importância. Quando chove muito, sem locais adequados para armazenar a água, muita dela é desperdiçada, e quando precisamos dela não a temos.

 

 

A AOP participou na definição da Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais. Quais as medidas da Estratégia mais urgentes?

 

As 20 medidas da Estratégia são prioritárias e transversais a todos os setores de produção de cereais. É um documento muito importante para a orizicultura. Destaco, por exemplo, a majoração dos investimentos no redimensionamento dos canteiros dos arrozais e dos investimentos em obras para levar a água diretamente aos canteiros ou ainda a criação de uma medida agroambiental para os arrozais: conservação da biodiversidade em sistemas agrícolas inundáveis. Mas também há a questão do apoio às Organizações de Produtores, dando-lhes meios para uma maior capacitação técnica. Por outro lado, o Ministro da Agricultura falou em dar prioridade à questão da redução dos custos da energia, o que para nós também é muitíssimo importante.

 


«É urgente que a agricultura se organize para não ser substituída pela indústria»


 

Aumentar o autoaprovisionamento de arroz de 60% para 80% até 2022 é viável?

 

Sim é viável aumentar a produção nacional de arroz e o desenvolvimento de novas variedades mais adaptadas ao clima das regiões orizícolas de Portugal poderá contribuir de forma significativa para este aumento, com variedades mais produtivas e mais resistentes a doenças e à acama. O Ceres e o Maçarico, nos ensaios realizados no Tejo, Sado e Mondego, apresentaram produtividades muito interessantes, acima das 6 ton/ha que se obtêm com algumas das variedades importadas mais cultivadas em Portugal. Temos indicadores muito positivos quanto ao arroz carolino Ceres, tanto em produtividade como em qualidade e desempenho gastronómico.

 

 

O Ceres e o Maçarico chegam ao mercado quando? Quem vai comercializar a semente?

 

Estas duas variedades estão em fase de multiplicação e paralelamente em fase de testes em cenário real do agricultor. Neste ano agrícola foram semeadas por duas organizações de produtores com o objetivo de dar a conhecer aos orizicultores as variedades. Pensamos que em dois a três anos estarão à venda e terão obrigatoriamente para os agricultores custos menores do que as sementes importadas. O INIAV, os agrupamentos de produtores e as indústrias, que estão representados no COTARROZ, estão a definir o modelo de comercialização da semente. Está tudo em aberto.

 

 

E na relação com a cadeia de valor a jusante (indústria, comércio, consumidor), quais os principais desafios dos orizicultores portugueses?

 

Quanto maior for a distância entre quem produz e quem consome, menor é o valor criado. Uma das questões que temos de repensar é a organização da produção, porque a indústria e a distribuição estão organizadas, sabem o que querem e fazem o seu trabalho. Neste momento temos indústrias a fazer unidades de secagem e armazenagem de arroz, um papel que devia caber à produção. Perdemos muito valor neste circuito, por falta de capacidade de cumprirmos integralmente o nosso papel. Só com organizações de produtores fortes teremos maior capacidade negocial, tanto com a indústria como com a grande distribuição. Por outro lado, comunicar com o consumidor para valorizar o arroz português é outro dos grandes desafios e necessidades do setor. As palavras-chaves são: valorização e diferenciação. É preciso explicar que há diferenças entre um arroz Carolino e Agulha, e face a outros tipos de arroz importado, e realçar as vantagens de consumir arroz português. Produzimos arroz com qualidade e segurança em Portugal, mas é preciso que o consumidor o saiba, e para isso é necessário comunicar. A AOP, em parceria com a Casa do Arroz, tem feito algumas ações de comunicação e divulgação do arroz Carolino com bons resultados, mas é preciso insistir e massificar a mensagem.

 

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